NAMORADOS

“Eu sou eu.

Você é você.

Eu não estou neste mundo para atender

às suas expectativas.

E você não está neste mundo para atender

às minhas expectativas.

Eu faço a minha coisa.

Você faz a sua.

E quando nos encontramos

é muito bom.”

(De PEARLS, em “O amor que acende a lua”, de RUBEM ALVES)

DIAS DE INVERNO

         Claro que há controvérsias, mas são doces estes dias de frio, se não chove. Tudo e todos se quedam mais recolhidos, menos afoitos. Reina um tipo de delicadeza. A delicadeza de falar mais baixo, de estar mais em casa, buscar aconchego,  sair menos às ruas, especialmente à noite, ou de madrugada, reduzindo as chances de acontecimentos funestos. (Será que há menos crimes, nesses dias e noites? Será que criminosos não pensam melhor antes de sair para invadir, roubar, ferir? Talvez.)

     O fato é que dessa delicadeza vem mais poesia, mais cuidado, mais olho no olho e intimidade, inclusive com as coisas nossas de cada dia. Mesmo que à força, olha-se melhor para dentro. Para dentro da gente, dentro de casa, dos guarda-roupas, das gavetas. E pensa-se nos outros que, se têm gavetas,  agasalhos dentro delas não têm. E se constrange o coração de muitos, donde surgem doações, campanhas do agasalho, solidariedade, algum compartilhamento. Não se vê, no verão, distribuição de shorts, camisetas-regata, biquínis… Não se constrangem os corações pelo calor que os menos favorecidos andam passando, até porque onde não há o refresco do mar há o de um rio, cachoeira, piscina, tanque ou torneira, e muito menos se deflagram campanhas para doar refrigerantes, sorvetes, saladas… E isto pode embrutecer a gente.

    Nestes dias frios há mais silêncio, mesmo de dia, inclusive da parte dos bichos, como se dessem trégua a correria e a barulheira, latidos e comparecimento de aranhas, baratas, formigas. O olhar é mais atento, menos disperso, mais perspicaz: sente mais. E sentar ao sol que não queima nem faz suar aquece também a alma, convida a sonhar, cochilar, namorar… Daí mais comedimento, menos espalhafato, mais elegância. Anda-se mais devagar, sempre que possível, talvez para armazenar calor, e isto prolonga os passeios e as conversas, se se está em paz. Dá vontade mais vezes de arrebentar pipoca e tomar chocolate quente, de beber mais chá ou café, de assar bolo e pão, fritar bolinho, ficar junto, conversar. E de abraçar o cobertor que ficou quente, na janela (que delícia!) e aproveitar aquele trecho da cama (ou de qualquer outro lugar) onde o sol pega à tarde, ou de manhã, e sentar ali com um livro, esquentar os pés, as costas, chupar mexerica, lagartixar… Tão simples!

     Aqui, nas montanhas, nem venta nesses dias. Lá pelas tantas pode passar, como em câmera lenta, uma nuvem leve, frisada e branquíssima, muito alta, a lembrar os Alpes ou os Andes, talvez. E o céu é tão profundamente azul que parece ser ele o responsável pela quietude da vizinhança: talvez tenham parado um pouco para beber desse azul, desse sol ameno, do ar mais fino, mais limpo. Ou, quem sabe bordem mais, leiam mais, lagartixem mais? Também pode ser que se acovardem mais no sofá, diante da TV, encolhidos e tolhidos… cada um, um estilo.

     Claro que pisar descalço no piso frio do box, no banheiro, exige um “plus” de disposição, e sair do banho quente e relaxante, ou da cama de manhã quase requer coragem mesmo, em pessoa, e digo quase porque não dá para esquecer do que requer verdadeira coragem nesta vida e que passa longe de tocar em metais e azulejos gelados!  Esses pequenos sustos, quando nem 10º marcam os termômetros, compõem o lado ruim dos dias frios. Mas desgraça é outra coisa. Agradável não é lavar as mãos na água fria, ou tirar a roupa para entrar no banho, muito menos o são as tarefas dos que precisam mexer em água, e o dia-a-dia penoso dos desfavorecidos pela imprevidência própria ou alheia, mas tudo também faz parte. O nome do planeta é Terra, não Céu, o que faz da vida aqui um campo de provas. Com chances de pequenos e grandes prêmios. Felicidade completa, mesmo, só a dos bichinhos domésticos: pegam sol o dia inteiro, espalhados onde há mais calor, lânguidos e preguiçosos, se é que se pode – ou deve – atribuir a eles qualidades tão humanas. No inverno ou no verão.

   

                                                                                                     

MEU BEBÊ…

 

 

 

 

 

 

 

Pra você saber o que nunca te disse: 
 
Obrigada, Mãe, pelo colo,
pelo amor e pelo carinho.
Obrigada, Mãe, pelo cuidado
ao nivelar meu caminho.
Desculpa, Mãe, pela grosseria,
pela falta de educação e paciência.
Desculpa, Mãe, pela indiferença
que se impunha na minha adolescência.
Me comoveu muito o empenho
pra me ajudar a alcançar minha felicidade.
Ainda que sem gostar da idéia,
me entregou a outra cidade.
Não me surpreendo mais com você,
pois você nunca desistia.
Parte com garra e perseverança
como uma leoa defendendo sua cria.
Agradeço, acima de tudo, não a você,
mas a Deus, que me presenteou
antes mesmo de eu saber por quê
me dando a vida através de você.
Te amo, te amo e te amo!!”

                Débora

NOVIDADES

  

Foi só externar minha preferência pelo rotineiro que vieram novidades. Muitas e de uma vez. Tudo em janeiro. Começou com a decisão da caçula de se mudar pra Curitiba. Tudo bem que era sonho antigo. Mas dependia de passar no vestibular… Pelo menos do meu ponto de vista. Como não passou, resolveu ir assim mesmo, de mala e cuia. Imersão no local… Certo: em agosto ela faz 21. Mas é o meu bebê… “Ahhh… mãe!!!”. Mas é. Enfim, eduquei para a independência e autonomia e agora queria o que? Hesitação?… É auto-confiante, madura, decidida e corajosa. Habilidosa também. Determinada, principalmente. Sem medo. Ótimo, eu sei, mas… e eu? E o quarto vazio, agora? Tudo bem, tudo bem, é assim que tem que ser, ela é a flecha e eu, só o arco! Não foi a primeira, é a terceira, mas dói do mesmo jeito. Talvez mais, já que estou mais velha. Menos corajosa e resistente. Também convivemos mais, nos últimos 5 anos, depois da minha aposentadoria. Desde cedo ela tinha medo de me perder, depois da morte da avó e do pai. Pelo jeito, passou… Claro que é melhor do que apatia, inutilidade, omissão. Tá. Foi chorando, e chorando ficamos. Domingo triste! Hoje conversamos no Messenger e ela está feliz: vejo pela webcam. E faz careta, palhaçada, se emociona, ri e sorri. Menina bonita. Deus a abençoe todo dia, como tem sido, aliás, desde sempre. E que assim seja! Mas fiquei sem assistente e sem muito mais. Agora, tudo eu de novo… inclusive.

     Teve também hospital: cirurgia da Dri, de nariz, dia 8. Tudo certo, belo resultado. Fiquei de enfermeira e sem faxineira, que fez implante dos dentes, dia 9. Todos, de uma vez. Licença de 20 dias. E não tenho empregada. Me viro. Mas não dei conta da unha encravada… Duas, nos dedões dos pés. Dia 16, centro cirúrgico e várias picadas de anestesia local. Por uma boa causa: nenhuma sensibilidade e ele cortando, corrigindo e costurando. Bendita invenção da anestesia! Disse o meu médico que teria sido em Boston, século 18, se me lembro bem. E que antes se embebia algodão com éter e se enfiava no nariz da vítima, digo, paciente. Ele apagava e eles operavam. Terminava o efeito, repetiam a dose, até o fim. Sem outros controles… E eu ali, no possível conforto, sem frio nem calor, ouvindo o bip do monitor, grata por ser o século 21, tranqüila e curtindo a maravilha de perceber a cirurgia sem sombra de dor… Fim do suplício de pisar em gelo fino, prestes a espatifar.

Volto pra casa e a paciente de nariz vira enfermeira. De pés pra cima, vejo tudo por fazer. Em férias, minha enfermeira – uma revelação! – decide fazer velas decorativas. No balcão da cozinha… e no fogão. Nem quero ver. De repente a notícia do amigo infartado. Mas, gente Tudo junto?  E chove, chove, chove: janeiro no sudeste do Brasil. E goteiras na sala, como não? –Chama o Acácio! E sobe, martela, conserta. – Quer que lave as caixas d’água? — Vai, lava! Pelo menos essa parte se resolve. Não dá pra escapar. Coração apertado pela falta dela, alegria da casa, passarinha fujona, e dedões doloridos, inflamados, custando a cicatrizar. Banhos de romã, arruda e calêndula. Cama ou sofá. Antibiótico oral caro e, a meu ver, inútil. Curativo e limpeza à custa de xilocaína tópica e delicadeza de filha: ainda bem… Medo do diabetes e suas complicações: perder o dedo, o pé? Cheiro de vela sugerindo aviso de morte. – Sai, pensamento sinistro!  

E finalmente a lembrança de um antigo antibiótico químico vegetal, famoso na família e na cidade: invenção de um dentista, acho eu, dos tempos do meu avô. Um décimo do que gastei na farmácia e o triplo da eficácia: cicatriza a jato e desinflama no ato! Tinha me esquecido. Impressionante! Como as guinadas que a vida dá. Se, por um lado, passou mais esta e a gente vai vencendo, por outro fica a certeza de que outras virão. Sem prévio aviso, é claro! Já disse Guimarães Rosa: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

LA QUESTION

Loneliness 

Quem irá compartilhar comigo a lua entre as nuvens?

Saber olhar o céu e ser feliz por saber que também sei?

Massagear-me os ombros ao me ver cansada,

Bem antes que eu peça, ao fim do dia?

Trazer-me uma flor, um beijo doce, um presente

Assim à toa e de repente

Sem rodeios, culpa ou agenda?

Ter vida própria e gostos próprios, vigor e personalidade

Sem que a minha o afronte, incomode, amedronte?

E sábio saiba ver, em mim

Uma rara e algo bela mulher

Desejável, ainda, a seu ver

Tantos anos vencidos, impressos, marcados?

O homem sereno e atento

Amante e amigo

Generoso e bom…

Existirá este homem?

Que me diz “bom dia” ao me abraçar na cama

A postos, seguro em seu papel … Haverá?

O que se posta a meu lado inteiro e firme,

E compartilha e sugere, adverte e defende

Até com o olhar: existirá o meu?

O que me toca o ombro, carinhoso,

E me beija a nuca, sensual,

Sugerindo mais e já se impondo,

Plenipotente: Alguém assim surgirá?

Que se orgulhe de nós?

De si mesmo e de mim?    

Sentinela amorosa, amigo integral, parceiro presente…

Terei eu feito jus?

Ao que caminha de mãos dadas

Em qualquer tempo ou lugar

E só por isto é feliz?

E contente conversa, brilhante

E faz rir, divertido

Partilhando momentos

Dividindo alegria, inteligência e prazer?

Ou serão insanos, inúteis lampejos

Estes meus anseios

Por um amor de pessoa

Na pessoa de um homem

Que talvez nem exista

Ou então coexista, realizado e feliz?