Literatura do cotidiano e o que mais interessar…

DEZEMBRO



“É sabido que em dezembro a Humanidade perde coletivamente o  juízo, isto é, piora o seu já aflitivo estado de ilusão com um furioso ataque de esperança na felicidade. Os réveillons, a árvore de Natal, o sapato do Pai Noel, os grandes prêmios de loteria são as provas do curioso delírio coletivo”.

JOÃO DO RIO

“Há muita gente que presume honrar a sua rudeza, grosseria e incivilidade qualificando-as de franqueza, independência e amor da verdade”.

 

FINADOS

LIVRE PARA VOAR

  • Senhor Jesus!
  • Enquanto nossos irmãos na Terra se consagram hoje à lembrança dos mortos-vivos que se desenfaixaram da carne, oramos também pelos vivos-mortos que ainda se ajustam à teia física…
  • Pelos que jazem sepultados em palácios silenciosos, fugindo ao trabalho, como quem se cadaveriza, pouco a pouco, para o sepulcro;
  • pelos que se enrijeceram gradativamente na autoridade convencional, adornando a própria inutilidade com títulos preciosos, à feição de belos epitáfios inúteis;
  • pelos que anestesiaram a consciência no vício, transformando as alegrias desvairadas do mundo em portões escancarados para a longa descida às trevas;
  • pelos que enterraram a própria mente nos cofres da sovinice, enclausurando a existência numa cova de ouro;
  • pelos que paralisaram a circulação do próprio sangue nos excessos da mesa;
  • pelos que se mumificaram no féretro da preguiça, receando as cruzes redentoras e as calúnias honrosas;
  • pelos que se imobilizaram no paraíso doméstico, enquistando-se no egoísmo entorpecente, como desmemoriados, descansando no espaço estreito do esquife…
  • E rogamos-te ainda, Senhor, pelos mortos das penitenciárias, que ouviram as sugestões do crime e clamam agora na dor do arrependimento;
  • pelos mortos dos hospitais e dos manicômios, que gemem, relegados à solidão, na noite da enfermidade;
  • pelos mortos de desânimo, que se renderam, na luta, às punhaladas da ingratidão;
  • pelos mortos de saudade, que lamentam a falta dos seres pelos quais dariam a própria vida;
  • e por esses outros mortos, desconhecidos e pequeninos, que são as crianças entregues à via pública, exterminadas na vala do esquecimento…
  • Por todos esses nossos irmãos, não ignoramos que choras também como choraste sobre Lázaro morto…
  • E trazendo igualmente hoje a cada um deles a flor da esperança e o lume da oração, sabemos que o teu amor infinito clarear-nos-á o vale da morte, ensinando-nos o caminho da eterna ressurreição.

Fonte: “Religião dos Espíritos” – Francisco Cândido Xavier

DIA DO PROFESSOR

Verdades da Profissão de Professor



“Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.
A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.”

Paulo Freire

http://www.pensador.info/frase/NTI0ODYz/

 

VIDA E VALSA

Termino de almoçar e não posso evitar de olhar a pia da cozinha repleta de objetos culinários obviamente sujos. Ou, usados. Ok! Arregaço as mangas e enfrento, inclusive porque sou só eu na casa. E na cozinha. Mas, assim, a seco? Não, não mesmo. Pelo menos vou ouvir música enquanto isso, e música alta, preenchendo ouvidos e ambiente. Inclusive os dos vizinhos. Mas eles nem podem reclamar, porque não ouço pagode, nem funk. (Tomara que pensem como eu…) 😉

Então escolho um CD. Sei que quem me conhece logo pensou que seria um do IL DIVO, ou do Chico, mas para surpreendê-los, e a mim também, pego um de… Valsas Vienenses. Uau! Duvido que alguém teria adivinhado. Então vou pra cozinha e deixo rolar, isto é, tocar. A primeira, claro, é “Danúbio Azul”. Melodia imortal. Merecidamente, aliás. E isso ninguém impõe nem escolhe. Só que tenho 55 anos, adolesci ouvindo Beatles e Chico e Jovem Guarda, logo, valsa só no baile de debutantes. Pelo menos meu pai sabia dançar, porque meu padrinho… Em compensação, era bonito. Deus, como era belo o Bira!

Voltando às valsas: só dancei no meu baile de debutantes (e eu nem era – como não sou –  da alta) e depois no baile de formatura do meu marido. Também teve uma vez com a Débora, na formatura de uma amiga. Ou seja, foram três vezes. Ah, mas eu quase me esqueço de que fui aluna da Zezé Granato, uma competentíssima educadora física, coreógrafa e artista, completamente artista. E a gente fazia uma variação de Ginástica Rítmica, já que nem tínhamos aparelhos de acordo ou dedicação suficiente. Mas eis que, ao som de Danúbio Azul, largo o que nem cheguei a começar, e que era a louça suja esperando água e detergente, e danço pela cozinha, já que ninguém vai me julgar nem invejar. 🙂

Tá bom, tá bom… aquelas pernas bonitinhas e eficazes da minha adolescência ficaram lá na memória, mas, a memória não me trai e ainda me lembro dos movimentos e das coreografias. E dou um show só para as paredes e demais componentes do ambiente culinário. Decerto se eu pudesse me ver, daria é boas risadas, crítica que sou. E vocês também, claro. Desculpem por isso: não atendo pedidos! 😉

Mas o que resta disso tudo é que me impressiona a vivacidade e o estímulo que esse gênero musical pode provocar. Os compositores de valsas deviam ter muito tempo livre, poucos estímulos exteriores e tecnológicos, e, evidentemente, talento musical e técnica apurada, como a época exigia. Tanto que essas valsas vienenses continuaram a ser relançadas, e tocadas e dançadas, embora não na TV. Mas, o que é a TV? E isto é outro assunto.

Claro que, mesmo avivada e estimulada por esses ritmos cadenciados e vibrantes, no caso executados pela Wiener Volksoper Orchestra, não dá pra esquecer que, primeiro, meu peso atual e minhas pernocas sacudidas fazem da dança um exercício audacioso, e, segundo, a pia da cozinha continua populosa de apetrechos por lavar. Além do mais o disco acabou, mas o sol entra pela janela, sobre a pia, assim como o ar fresco e o trinado dos passarinhos nas pitangueiras. De bandeja. Por que reclamar?

ADEUS

     😦   Foi-se minha amiga para o outro plano. Este nem sempre lhe sorriu. Ou sorriu torto e ela, de matéria diversa, mal compreendeu e não curtiu. Primeiro a quase indiferença sob a capa da conformidade, depois o rodar a baiana de 360 graus, e sempre a eterna luta para estar bem, parecer bem, passar bem. Porque não era natural, nem habitual, ao contrário. Exceto a luta.

           Os grandes olhos azuis bem abertos, tática de impedir as lágrimas, sinalizavam que peitava a vontade de não mais. Até que se esqueceu dos cintos de segurança: todos! Foi-se a minha amiga. Silêncio… Mas sexta teve baile, e risadas, e cerveja para acompanhar. Não para alguém dirigir. Muito menos se dirigir. Foi-se a minha amiga. E xará.